Uma revolução francesa

Os coletes amarelos representam uma revolta contra toda e qualquer autoridade política, e de resistência à mudança do estado de coisas, seja qual for o sentido dessa mudança.

Quando foi eleito Presidente da França, Emmanuel Macron disse que nunca recuaria se e quando as reformas que propusera ao eleitorado enfrentassem contestação popular. Na semana passada, o seu governo fez precisamente aquilo que Macron prometera não fazer.

Nas semanas anteriores, milhares de pessoas um pouco por toda a França juntaram-se em protesto contra um aumento do imposto sobre combustíveis previsto para Janeiro e, especialmente em Paris, entretiveram-se a incendiar, da forma mais literal possível, as ruas.

Confrontado com a violência, Macron fez o seu primeiro-ministro (cuja identidade nem o próprio deve conhecer) anunciar uma “moratória” de seis meses na entrada em vigor do imposto, logo alargada para o resto de 2019. Mas como seria de esperar, os protestos e a violência não chegaram ao fim com as cedências governamentais.

Nas catacumbas da internet, “amigos” (no desvirtuado sentido que a palavra tem no Facebook) meus manifestavam a sua admiração pelos franceses que, ao contrário dos portugueses que só reclamam “direitos adquiridos”, lutavam contra o “roubo” imposto pelo Estado.

Em França, o “insubmisso” Mélenchon foi acometido por avassaladores arrebatamentos pela “insurreição cidadã”, e um tal de Laurent Wauquiez, segundo dizem chefe do partido da “direita” não-lepenista local, encavalitou-se na turba multa para pedir um referendo sobre as políticas governamentais (já Le Pen não se ficou por tão pouco, pedindo a dissolução da Assembleia enquanto louvava o “povo” que mostrava a sua “intransigência face ao sofrimento”).

Nos EUA, um editorial do Wall Street Journal extasiava-se com a “revolta” contra o “sacrifício do crescimento” em prol da “piedade verde”. Por cá, Sérgio Sousa Pinto, prosseguindo os seus cada vez mais notórios esforços para ser reconhecido como o filósofo-rei do marialvismo de “esquerda”, escreveu um muito elogiado artigo em defesa apaixonada do “homem comum” que “veio para a rua” mostrar o seu “desespero” a um Presidente “indiferente” às dificuldades quotidianas dos cidadãos.

O apreço de Mélenchon e Le Pen pela coisa é um sintoma de como Sousa Pinto e os meus “amigos” não perceberam bem o que se está a passar em França. Ao contrário do que pensam, e como os dois líderes dos radicalismos franceses bem compreendem, os “coletes amarelos” não representam um normal protesto contra o saque fiscal dos governos europeus modernos, nem contra a indiferença das elites para com as “pessoas comuns”.

Trata-se, isso sim, de uma revolta contra a autoridade política – qualquer autoridade política – e de resistência à mudança do estado de coisas – seja qual for o sentido dessa mudança. E nem se trata de uma questão de um movimento inicialmente legítimo ter sido infiltrado por gente com propósitos meramente destrutivos. Esse carácter simultaneamente revolucionário e reaccionário estava lá desde o princípio, mesmo que nem os próprios “coletes amarelos” se apercebessem dele.

Um pouco por todos os Estados desunidos da Europa e da América, o problema é o mesmo: impostos demasiado altos para a vontade das populações para os pagar são, ao mesmo tempo, insuficientes para cobrir todas as despesas com que os respectivos governos sucessivamente se foram comprometendo, e das quais os seus beneficiários não querem abdicar.

Daí resulta que qualquer governo se vê obrigado a introduzir mudanças na forma como o Estado se relaciona com os cidadãos, na quantidade e tipo de despesa que faz ou de impostos que cobra, e que toda e qualquer mudança provocará o descontentamento de populações já pouco satisfeitas com os resultados do estado de coisas que não querem mudar.

Por isso, em França, saíram à rua em protesto contra cortes na despesa pública quando Macron anunciou reformas no sector público, e por isso protestaram agora contra um aumento de impostos. O “povo” abstracto que “sai” à endeusada “rua” quer sempre que tudo fique melhor mas que ao mesmo tempo tudo fique na mesma, um vazio cujo único resultado prático é o atrofiamento das condições de exercício do poder político.

Há 230 anos, a 7 de Junho, o “povo” de Grenoble também “saiu” à “rua”, amotinando-se contra as reformas judiciais introduzidas pelo ministro do Rei, e fez “derramar” o “primeiro sangue” da “revolução”.

A Coroa empenhara-se numa “modernização” do Estado – eliminando barreiras locais ao livre comércio dentro das fronteiras nacionais, abolindo controlos de preços e reformando os direitos de propriedade, criando órgãos de representação política que melhor reflectissem a “opinião” da “nação”, e procurando acabar com excepções fiscais e melhorar a eficácia da cobrança de impostos (que a elevada dívida tornava uma imperiosa necessidade) – que provocara uma forte resistência dos “pequenos” nobres, artesãos, e camponeses afectados ou pelos novos impostos ou pela “liberalização” do mercado nacional e do comércio com o exterior.

Nesse dia, a resistência transformou-se em violência, que aterrorizaria os franceses nas décadas que se seguiram e destruiria sucessivos regimes, do “Antigo” ao “Império” de Napoleão, passando pelos vários “revolucionários” que os permearam. É verdade que a História não se repete, mas às vezes até parece que sim, e a semelhança até aqui não augura nada de bom para o futuro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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