Vacina para a Covid-19: “Em Portugal, não temos esse capital disponível”

A P-Bio pede que haja mais financiamento, mais recursos e uma melhor interação entre o Governo, Assembleia da República e entidades do setor no novo programa estratégico desenhado para as empresas de biotecnologia em Portugal. Ao JE, a associação de empresas de bioindústria garante que não existe um setor industrial forte em Portugal.

Krisztian Bocsi/Bloomberg

A corrida para a vacina da Covid-19 já conta com um leque alargado de entidades de todo o mundo. As mais recentes a ganhar terreno foi a candidata russa, Sputnik V, que, na semana passada, foi registada oficialmente como uma vacina, e a chinesa que registou, esta segunda-feira, a patente para a produção de um fármaco. 

Em Portugal, a possibilidade de entrar para a corrida foi descartada pelo próprio setor que diz que a única condicionante é a falta de financiamento.

“Para desenvolver uma vacina é preciso tecnologia e capital para completar o desenvolvimento clínico”, explica ao Jornal Económico (JE), David Braga Malta, vogal da direção da P-Bio e Coordenador do programa Bio-Saúde 2030. “Em Portugal, não temos esse capital disponível para o sector, o que limita desde logo a nossa capacidade de desenvolver uma vacina”.

Dado a falta de financiamento e recursos, a Associação Portuguesa de Empresas de Bioindústria (P-BIO) lançou o plano estratégico Portugal Bio-Saúde 2030, em que apela por um maior investimento nos setores das Ciências da Vida e Biotecnologia como uma aposta para uma economia com base em conhecimento e na produção de produtos de alto valor acrescentado.

“A única fonte de investimento que temos atualmente em Portugal são os fundos estruturais, que não foram desenhados para investir em produtos inovadores com ciclos de desenvolvimento longos, como são exemplo os novos medicamentos”, continua por explicar o responsável que salienta ainda que esses fundos causam limitações drásticas na utilização de capital e enviesamentos.

“Os fundos estruturais estão desenhados para promover emprego em volume e com menor qualificação. No nosso sector, o que nós queremos é desenvolver produtos de elevado valor acrescentado e emprego altamente qualificado”.

Estratégia da P-Bio complementa plano de recuperação económica de António Costa e Silva

Na estratégia para 2030, a associação portuguesa do setor pretende também posicionar Portugal como um centro de Investigação e Desenvolvimento em Biotecnologia e Ciências da Vida – tornando Portugal num Hub de I&DT – e um pilar estratégico da capacidade de produção na União Europeia (UE), “fazendo do nosso país a fábrica da Europa para a saúde”.

Algumas das medidas apresentadas neste plano estratégico da P-Bio foram também contempladas no plano recentemente apresentado pelo António Costa e Silva, mostrando a relevância que esta área pode ter para a economia nacional.

O coordenador do programa Bio-Saúde 2030 defende que ambos os documentos são “complementares na medida em que um defende a aposta estratégica e o outro concretiza com medidas concretas e quantificadas do ponto de vista de custo e de impacto económico” e que por isso a sua execução está facilitada.

Porém deixa um alerta para que essa ação seja feita de forma limpa e que não sofra erros na legislação. David Braga Malta considera que um dos “maior problemas que temos em Portugal” é precisamente o processo de execução de um plano estratégico.

“Muitas ideias e apostas com valor perdem-se na execução. Queremos garantir que o fazemos do modo certo. Para tal, não temos que ser criativos, não é preciso reinventar a roda, basta seguir as melhores práticas internacionais”, esclarece.

Para isso, o responsável pede um diálogo melhorado e mais aberto entre o Governo, a Assembleia da República e o setor defendendo que o Bio-Saúde 2030 é “sobre novos produtos inovadores, com vantagens competitivas sustentáveis, que incorporem tecnologia e ciência de ponta e que permitam uma economia baseada em margens elevadas e emprego altamente qualificado”.

Fazem parte das medidas do Portugal Bio-Saúde 2030 as seguintes propostas: Capacitação do tecido industrial da UE, constituição de uma reserva estratégica de capacidade produtiva para UE em saúde, promoção do emprego altamente qualificado, promoção da transferência de tecnologia com o financiamento de Fundos de Capital de Risco especializados em ciências da vida, promoção da investigação e desenvolvimento clínico em Portugal e a atração de polos de I&DT em Saúde para Portugal.

O plano estratégico elaborado pela P-BIO foi apresentado, nos últimos meses, a vários Ministérios, num trabalho conjunto para enriquecer o debate sobre o tema. O programa conta com já mais de 120 subscritores de diferentes instituições, entre os quais elementos da Associação Nacional das Farmácias (ANF), Associação Portuguesa das Empresas de Dispositivos Médicos (APORMED), Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Fundação Champalimaud, i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, Instituto de Medicina Molecular (IMM), Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), Pfizer, Bial, Hovione ou Sonae.

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