Bruxelas agrava previsão para o tombo da economia portuguesa. Contração será de 9,8% este ano

A Comissão Europeia está mais pessimista do que o Governo, que prevê uma queda da economia de 6,9% este ano. Nas previsões de verão, Bruxelas alerta para os riscos descendentes devido ao grande impacto do turismo estrangeiro, associado às incertezas no médio prazo permanecerem significativas.

A Comissão Europeia está mais pessimista do que o Governo sobre o desempenho da economia portuguesa para este ano. Bruxelas cortou as perspetivas do crescimento do PIB para uma contração de 9,8% este ano, que compara com os 6,8% estimados em maio e que a tornavam na instituição mais otimista entre as principais organizações nacionais e internacionais.

As projeções de Bruxelas têm sido apontadas pelo Governo como argumento de que não estaria demasiado otimista para a estimativa de uma queda do PIB de 6,9% este ano, inscrita no cenário macroeconómico que sustenta o Orçamento Suplementar. No entanto, a atualização dos dados da instituição presidida por Ursula Von der Leyen colocam-na agora ligeiramente mais pessimista do que o Banco de Portugal, que prevê um recuo de 9,5% (ou 13,1% no cenário mais adverso).

Nas previsões de verão, publicadas esta terça-feira, a Comissão Europeia aponta para as “dramáticas contrações na maioria dos indicadores económicos” que terão reflexo numa deterioração do desempenho da economia portuguesa “a um ritmo muito mais acentuado de cerca de 14%” no segundo trimestre, na comparação em cadeia.

“O turismo foi o dramaticamente o mais afetado, com as visitas a colapsarem quase 100% em abril face ao ano anterior”, realça, dando nota de que o indicador de sentimento económico da Comissão também caiu abruptamente de 105,7 pontos em fevereiro para 63 pontos em maio, antes de uma recuperação parcial para 74,1 pontos em junho.

Ainda assim, Bruxelas destaca que a taxa de desemprego manteve-se “amplamente estável” – entre os 6,2% a 6,3% em março e abril -, uma vez que “as demissões temporárias não tiveram um impacto estatístico imediato e os regimes de trabalho de curto prazo também ajudaram a compensar o choque”.

Apesar de realçar que o atividade económica está a começar a recuperar lentamente, na sequência do desconfinamento gradual a partir de maio, adverte que os efeitos irão perdurar para muitas empresas, nomeadamente no setor da aviação e hotéis, as quais deverão “permanecer abaixo do nível pré-pandémico por um período mais longo”.

Porém, se está mais pessimista sobre a dimensão do tombo este ano, Bruxelas está ligeiramente mais otimista para a recuperação no próximo ano. Se nas previsões de primavera projectava uma recuperação de 5,8% em 2021, agora prevê que o crescimento seja de 6%.

“Os riscos ainda são descendentes devido ao grande impacto do turismo estrangeiro, onde as incertezas no médio prazo permanecem significativas”, assinala.

As projeções do executivo comunitário colocam também a economia portuguesa a contrair mais do que a média da zona euro, ao contrário do último relatório. Segundo Bruxelas, o crescimento dos países da moeda única deverá recuar 8,7% este ano, antes de recuperar para 6,1%. Já para o conjunto dos países da União Europeia vê a economia a cair 8,3% este ano e a crescer 5,8% no próximo ano.

As estimativas para Portugal comparam ainda com as do Conselho das Finanças Públicas que prevê no cenário base uma recessão de 7,5% este ano e no cenário severo de 11,8%, antes da retoma em 2021 e do Fundo Monetário Internacional, que prevê uma queda de 8%.

Taxa de inflação deverá ser nula este ano

Bruxelas prevê que a taxa de inflação seja nula este ano e que suba para 1,2% em 2021, sublinhando que “os efeitos da pandemia nos preços ao consumidor já são visíveis”.

“Durante o primeiro semestre de 2020, o Índice Harmonizado de Preços ao Consumidor (IHPC) caiu abaixo de zero, refletindo uma queda significativa nos preços da energia, que mais do que compensou o aumento dos preços dos alimentos”, explica, adiantando que “apesar da crise ter criado uma combinação de choques na oferta e na procura com efeitos opostos nos preços, projeta-se que as pressões descendentes devido à fraca procura agregada prevaleçam”.

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