Jornal de Angola: “não faz sentido evocar perseguição, caça às bruxas ou intimidações”

No dia depois de ser conhecido o arresto de contas e participações de Isabel dos Santos, o diário estatal angolano publica um editorial com o título “A alegada caça às bruxas e a Justiça”. A peça não se refere à empresária, mas fala de “beneficiários do estado de coisas anterior” e de “vantagens obtidas indevidamente”, e urge a estes que recorram às instituições em vez de alegar “perseguição”.

Reuters

O Jornal de Angola, diário estatal visto como representante do poder em Luanda, referiu esta terça-feira num editorial que “pessoas próximas do antigo Presidente” José Eduardo dos Santos devem “evitar o discurso fácil de perseguição ou de caça às bruxas” e recorrer às instituições do Estado.

O editorial não se refere diretamente a Isabel dos Santos, empresária e filha do antigo presidente — cujas contas bancárias e participações em várias empresas foram arrestadas a pedido do Estado angolano, segundo um despacho do Tribunal Provincial de Luanda assinado a 23 de dezembro e divulgado esta segunda-feira — mas a mensagem é clara: fala em “beneficiários do estado anterior” e “dos que ficam retidos no passado”.

“Nos Estados democráticos, as mudanças de poder político, endógenas ou exógenas, acabam sempre por serem acompanhadas de correcções e um novo modus operandi do poder político que, não raras vezes, divide as sociedades entre os que abraçam a nova realidade e os que ficam retidos no passado”, refere.

“Estes últimos, quando constituídos por beneficiários do estado de coisas  anterior e porque grande parte das vantagens obtidas indevidamente, adoptam  em tudo o que for diferente o papel de vitimização, se confrontados com o fim dos privilégios”, adianta.

O editorial adianta que em África, individualidades e os seus próximos que passaram pelo poder se dizem, sempre e permanentemente, perseguidas pelo novo poder,  mesmo quando arroladas oportuna e legalmente pela justiça.

“A ideia de perseguição é sempre levantada, ainda que infundada e desprovida de quaisquer provas que a sustentem perante os órgãos policiais e de justiça que, como se espera, devem ser as destinatárias das queixas e situações que  eventualmente envolvam a segurança, liberdades, direitos e garantias fundamentais dos mesmos”, sublinha.

“Desde há algum tempo que temos sido confrontados com relatos de supostas  perseguições de individualidades angolanas, algumas das quais com pronunciamentos feitos no estrangeiro, alegando a permanência fora de Angola por  razões de segurança”, adianta, vincando que “inclusive ouvimos relatos de alegadas caças às bruxas por parte dos órgãos de justiça quando, na verdade, tais personalidades deviam fazer jus ao velho ditado segundo o qual ‘quem não deve, não teme’.

O Jornal de Angola recorda que ainda na semana passada o procurador-geral da  República, Hélder Pitta Grós recordou que o importante é fazer a denúncia e reunir ou contar as provas necessárias quando questionado sobre os alegados casos de perseguição e ameaça de  que se queixam “pessoas próximas do antigo Presidente”.

“Em vez do discurso fácil de perseguição ou de caça às bruxas, é recomendável  que as pessoas que se dizem visadas injustamente pelos órgãos judiciais recorram às instituições do Estado angolano, em que os operadores de Justiça trabalham, confiam e contribuem para a sua contínua melhoria”, vinca o editorial.

“Não faz qualquer sentido evocar perseguição, caça às bruxas ou intimidações sem apresentar provas quando o recomendável é, tão simples e elementar para qualquer pessoa consciente dos seus direitos, fazer chegar aos órgãos competentes”, conclui o diário estatal angolano.

O arresto dos bens aplica-se também a Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, e a Mário Leite da Silva, gestor português ligado aos negócios da empresária. Isabel dos Santos já reagiu às notícias sobre o arresto, escrevendo no Twitter que “a verdade há-de imperar“.

 

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