EY teme que empresas não consigam fazer o serviço de dívida depois do fim das moratórias

Estudo da consultura EY sobre os principais desafios para a economia portuguesa em 2021 sinaliza que o fim das moratórias não vai coincidir com o fim da crise económica. “Temos o enquadramento para se criar uma tempestade perfeita”, frisa o estudo.

Cristina Bernardo

A consultora EY teme que muitas empresas não consigam fazer o serviço de dívida depois da extinção das moratórias, que estão em vigor até setembro de 2021, realçando que o fim deste apoio da banca poderá constituir “a antecâmara de uma crise anunciada”.

A EY publicou esta sexta-feira um estudo sobre os principais desafios para a economia nacional que abordou vários temas, incluindo as moratórias.

No documento, Nuno Nogueira da Silva, associate partner da EY, escreveu que “sendo Portugal um dos países mais endividados do mundo e um dos que apresenta a maior proporção de moratórias face ao crédito total concedido, temos o enquadramento para se criar uma tempestade perfeita, atendendo a que o fim da moratória legal não coincidirá, com certeza, com o fim da crise económica, é expetável, senão mesmo provável, que as restrições de liquidez enfrentadas pelas empresas sofram novo agravamento e assim, aquando do termo da moratória, e do início do reembolso das linhas de apoio entretanto recebidas, não consigam fazer face ao seu serviço de dívida e honrar as suas responsabilidades”.

Em março, ainda antes da extensão da vigência das moratórias até setembro do próximo ano, o então Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, salientou que “há um efeito precipício no fim destas moratórias que não podemos ignorar“.

Confirmando-se este cenário pessimista, a banca nacional estaria pois exposta a um aumento do crédito malparado. Em outubro, a agência de notação financeira DBRS revelou que as moratórias representaram 22% da carteira de crédito bruto do Millennium bcp, Novo Banco e Banco Montepio, a proporção mais elevada de moratórias na totalidade da carteira na banca europeia.

De forma a mitigar o impacto deste cenário pessimista, Nuno Nogueira da Silva sugere que as financeiras dêem início “desde já” a um processo de análise das carteiras de crédito, “com o objetivo de avaliar e identificar empresas com riscos de incumprimento e estar dispostas a criar soluções de refinanciamento que permitam proteger não só as empresas, como todo o sistema financeiro”.

Em novembro, após a apresentação dos resultados do terceiro trimestre dos quatro maiores bancos a operar em Portugal — Caixa Geral de Depósitos, Santander, BCP e BPI —, o crédito a empresas em moratória correspondia a cerca de 12% do PIB português. Assim, no fim de setembro, o montante de crédito a empresas que beneficiavam de moratórias destes quatro bancos somava cerca de 26,55 mil milhões de euros, o que correspondia a 12,4% do PIB.

Em entrevista à SIC Notícias, esta quarta-feira, o presidente executivo do Novo Banco, António Ramalho, referiu que 76% dos créditos abrangidos por moratórias estão a pagar juros, quer no crédito a habitação, quer no crédito a empresas, o que mitiga de certa forma o cenário pessimista avançado pela EY.

Esta quinta-feira, no relatório de estabilidade financeira, o Banco de Portugal estimou que após a vigência das moratórias, o crédito malparado por falta de cumprimento das empresas possa subir 15%.

O supervisor da banca elencou ainda cinco riscos e vulnerabilidade à estabilidade financeira, entre os quais se inclui o elevado endividamento das empresas portuguesas.

As empresas não financeiras, que tinham visto cair o seu rácio de endividamento de 122% para 92%, entre dezembro de 2013 e dezembro de 2019, assistiram até junho a um agravamento em 6 pontos percentuais para 98%. “O rácio de endividamento das empresas aumentou 5,7 pp entre dezembro de 2019 e junho de 2020, para 98% do PIB”, lê-se no relatório.

“O agravamento da dívida das empresas constitui uma vulnerabilidade, não obstante o ajustamento pré-pandemia, podendo traduzir-se em pressão sobre a respetiva solvabilidade”, refere o relatório.

associate partner da EY salientou então que “as empresas devem proceder a um diagnóstico interno, frontal e transparente, da sua situação financeira atual e futura (mais conhecido por Revisão Independente do Plano de Negócios ou Independent Business Review, na terminologia anglo-saxónica) e, logo de seguida, iniciar um diálogo com as instituições financeiras”.

O consultor frisou ainda que o Governo tem de preparar o final das moratórias e “encontrar soluções alternativas de capitalização para empresas que se encontrem numa situação financeira debilitada pela envolvente macroeconómica onde se inserem”.

“Estas soluções podem passar por instrumentos de capital ou quase capital, que permitam a recapitalização das empresas, tornando-as mais robustas e capazes para enfrentar a situação difícil em que se encontram, devendo estes instrumentos ter uma remuneração justa e adequada, mas apenas após se ter alcançado a estabilização da situação financeira destas empresas”, concluiu Nogueira da Silva.

PremiumCrédito a empresas em moratória nos quatro bancos é 7% do PIB

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